Simplesmente a linguagem que o mundo pintou… A verdadeira essência do seu coração retrata a imaginação biologicamente exponencial que nos é depositada e alargada na nossa mente…
Os milhões de anos que marcam o nosso surgir, transportam algo que no seu íntimo significado é determinadamente intemporal… O tempo não consegue transpor os limites desta barreira… Aquele que é um grande sonho humano, uma fantasia elaboradamente criada no nosso cérebro, para esse determinado algo, é uma pura realidade inocente… Cuja verdade é exemplificada no povo romano, extinto no seu ser, mas vivo na sua alma… A criação de Rómulo e Remo no seu invisível faz parte indubitavelmente da história que nós hoje próprios construímos e desenvolvemos…As raízes carnudas e grossas que sustentam a nossa língua, transporta na sua seiva uma base comum, o latim… Doravante a intemporalidade não é a única característica marcada… As múltiplas e mútuas convivências interpessoais estabelecidas no meio em que surgimos, tal como também as nossas próprias experiências pessoais fazem parte deste algo e esse algo faz parte de nós… É a razão profunda de nós sermos e existirmos… Um sistema auspicioso que num perfeito equilíbrio dinâmico, está sempre em constante transformação e alteração… É a cultura…
Itália, 28 de Dezembro de 1513… Leonardo Da Vinci encontra-se na sua humilde e minuciosa casa, na província de Vinci, região de Florença… O mais pitoresco pormenor de uma habitação é o retrato da placidez intelectual do indivíduo que a habita… A lenha de abeto arde ao saber do tempo na lareira que mostra em cada detalhe ínfimo, um tom enegrecido, fruto dos anos que lhe pairam e da fuligem que a cobre… A tarde de Inverno mostra-se rigorosa e Da Vinci sem nada com que se entreter monta o tripé de madeira de salgueiro junto á lareira e coloca sobre o mesmo uma tela branca…Lembra-se que lhe falta a palete de cores e o seu pincel de crina de cavalo Lusitano, o seu preferido. Num impasse, vai buscá-los, e resguarda-se novamente junto ao borralho… Tal como a obra começa a surgir pelas mãos do seu criador, assim também a cultura num processo idêntico regurgitou, estando-se sempre a desenvolver e a renascer: uma verdadeira Fénix, figura mitológica que renasce das cinzas e que apresenta uma figura totalmente nova após cada renascimento… A cultura é um verdadeiro conjunto de processos, que leva á elaboração de um quadro pintado a tinta de óleo, tal como é incluída a própria obra que está fugaz na mente de Da Vinci…
A cultura é um produto final inacabado, tal e qual como uma pintura exposta numa tela… Ambas, de maneira alguma, não são independentes, estando-lhes sempre associadas um conjunto de cadeias causais e elementos fundamentais que lhes dão origem…
A “ simples e banal” tela é o local onde todo o enredo ocorre, onde a criação é feita… Numa pura analogia compara-se a tela de Da Vinci ao mundo que habitamos… É o local onde a cultura é produzida, género de um suporte que a sustenta e lhe fornece um conjunto de múltiplas capacidades para a construir… O mundo permite que surjam as mais variadas culturas, tal como hoje em dia podemos percepcionar em relação àquilo que nos rodeia, a cultura americana, sul africana, a Boximane, entre outras… Porventura não basta somente termos uma tela para que a obra nasça na sua máxima peculiaridade... Não há quadro sem pincéis nem tinta, tal como não há cultura sem matéria-prima que a desenvolva… Surge então a língua característica de cada povo, tal como os boximanes falam uma língua do grupo Khoisan, os americanos falam americano, o portugueses falam português, entre outras culturas que falam determinada língua específica; o modo e os materiais que se constroem as casas e as diversas habitações: enquanto que os boximane usam madeira, peles e palha para construírem a sua casa, que não passa de uma mera tenda, os americanos usam principalmente cimento e betão para construírem as suas habitações pomposas… Também o modo de obter comida que para os boximane se traduz na caça, o modo de viver e partilhar com os outros, os meios de transporte e até o universal beijo fazem parte de um conjunto de matérias primas, que manufacturadas permitem fazer surgir novas culturas, diferentes de todas as outras, mas mais do que tal, permite que as culturas já existentes estejam sempre num processo de desenvolvimento…
A pintura de Leonardo Da Vinci não pode ser concluída no seu máximo esplendor… Não basta a tinta, o pincel e a tela… É preciso algo mais do que especial, uma mente com uma singularidade unicamente criadora e imaginativa… Esse algo e ser humano… Se não fosse Da Vinci, através das suas múltiplas capacidades intelectuais , mentais e cognitivas, traduzidas nos infinitos rabiscos oleosos implementados na tela, nada era feito… A individuidade de cada individuo faz com que nenhum dos biliões de seres terrestres partilhem a mesma história, as mesmas ideias, os mesmos gostos e costumes… É através desta particularidade, desta fonte insaciável de imaginação que conseguimos dar uma voz ao mundo e ás matérias primas que ele nos presenteia, sendo essa voz, a diversidade cultural existente no globo… Podíamos ter os originais “Starry Night” e “Mona Lisa” á nossa frente e sabermos que para a sua elaboração foi usado o mesmo tipo de tinta e tela, contudo são formas de arte completamente diferentes, resultado da imaginação fértil de dois indivíduos diferentes… Podemos considerar a objecção de que quadros de um mesmo pintor são sempre diferentes… Sem dúvida uma preposição verdadeira, porventura há traços que os sustentam a todos, características iguais em todos eles, o ADN do seu criador…
A cultura recorre ao mesmo método, á mesma concepção… A cultura é o homem e o homem é cultura… Através da criatividade única e transcendente, conseguimos criar as múltiplas sociedades e civilizações, e as mesmas também fazem de nós o ser humano biologicamente social… Os nossos princípios e valores excepcionais fazem-nos lutar por aquilo que acreditamos, criando assim diversas e exclusivas culturas… Tal como certas culturas acham que uma garrafa de Coca-Cola é prejudicial á sua mesma cultura, , é porque esta ostenta a ideia de que esta pode ser prejudicial para a mesma… Por exemplo, a cultura Boximane não aceita a garrafa de Coca-Cola. Porventura se viajarmos até ao outro lado do mundo, aos Estados Unidos da América, reparamos que a sociedade americana já não vive sem a mesma garrafa, isto devido á sua única mentalidade, diferente da dos Boximane. Diferentes mentalidades, dedutivamente resultam em culturas obviamente diferentes… Mais do que importante é saber conseguir compreender estas grandes diferenças, e aceitá-las dentro dos seus próprios moldes e padrões culturais…Um mundo em que todos as pessoas se compreendem e entendem, é um mundo mais feliz e melhor… Isto é a relatividade cultural…
Henrique Aidos; Reflexão "A Relatividade Cultural"

